quarta-feira, 24 de agosto de 2011

RICOS QUEREM PAGAR MAIS IMPOSTOS NA FRANÇA

Em carta, franceses ricos pedem para pagar mais imposto

Oferta dos milionários vem em boa hora para Nicolas Sarkozy, que precisa cortar gastos e fazer ajustes fiscais

Na petição, ricos dizem que querem preservar o modelo econômico francês e europeu, do qual se beneficiaram

DO "FINANCIAL TIMES"

Algumas das pessoas mais ricas da França, entre as quais Liliane Bettencourt, maior acionista da L'Oréal, pediram por impostos mais altos sobre os ricos, no momento em que o governo se prepara para anunciar pesados cortes de gastos para controlar as finanças públicas.
Proposta semelhante foi feita pelo bilionário investidor americano Warren Buffett, que criticou o fato de estar sujeito a alíquotas de impostos mais baixas do que as de muitas pessoas que trabalham para ele.
Christophe de Margerie, presidente da petroleira Total e membro da família Taittinger, e Maurice Lévy, presidente da empresa de publicidade Publicis, também fazem parte do grupo de 16 executivos e investidores endinheirados que assinaram uma petição publicada pela revista "Nouvel Observateur", apelando por uma "contribuição excepcional" dos cidadãos ricos da França.
"Estamos cientes de que nos beneficiamos muito do modelo francês e do ambiente europeu, ao qual temos grande apego e que desejamos ajudar a preservar", afirmaram os signatários.
A petição chega em momento oportuno para o presidente Nicolas Sarkozy, que disputará a reeleição no ano que vem e que propõe novos cortes de Orçamento para acalmar os mercados.
O governo francês deve anunciar cortes de até € 13 bilhões (R$ 29,9 bilhões) para 2011 e 2012.
"Na França, uma medida tem de ser considerada justa para ser aceita. [Um imposto sobre os mais ricos] fará com que todo o pacote pareça mais justo. Não há benefícios financeiros concretos, mas impacto político e social", disse Dominique Barbet, diretor do banco BNP Paribas.
A maior parte das famílias ricas da França decidiu se ausentar da lista de signatários da petição, defendendo cortes de gastos públicos. 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

E A ARÁBIA SAUDITA, QUANDO CAI?

DA FOLHA

VLADIMIR SAFATLE

Outro jogo

À medida que o tempo passa, ficam mais claras algumas linhas hegemônicas da chamada Primavera Árabe. Agora que a Líbia junta-se ao Egito e à Tunísia como o terceiro país a ter seu governo derrubado por levantes populares, notam-se duas coisas.
Primeira, quando começa um processo de negação política posta em circulação por massas descontentes, não há governo, por maior que seja seu aparato repressivo, que esteja seguro. Gaddafi fez apelo até a mercenários, mas nada disso foi suficiente. Quem imaginava em sã consciência, há um ano, que escreveríamos hoje sobre sua deposição?
Maquiavel costumava dizer que o objetivo do povo era "não ser oprimido". Ou seja, um objetivo meramente negativo, uma recusa que não enuncia necessariamente algum novo princípio de organização social.
Ao que parece, os árabes deram razão a Maquiavel.
Seus levantes não foram em nome de uma nova forma de organização (embora seja sintomático que a palavra mais usada seja "respeito"). Foram em nome do fim de uma mistura entre opressão política e desencanto econômico.
Por serem objetivos eminentemente negativos, muitas possibilidades estão postas na mesa para o dia seguinte. Certo é apenas que tais regimes, como o de Gaddafi, há muito deveriam ter desaparecido.
Deve-se notar ainda como aqueles que diziam temer a instalação de teocracias na região passaram, até agora, ao largo de tudo o que ocorreu.
Não são fundamentalistas que pegaram em armas para derrubar Gaddafi, muito menos "antiocidentalistas", nem são eles que definiram os rumos na Tunísia e no Egito.
O que vemos é uma população disposta a acreditar que o futuro está aberto para ela. E da mesma forma que não é possível dissociar a dor que sinto da crença de que sinto dor, não é possível dissociar o futuro que se abre da crença de que o futuro está aberto.
O segundo ponto é como a queda de Gaddafi pode reanimar o ímpeto popular na região. Vemos os massacres na Síria, mas não sabemos mais o que ocorre no Iêmen, no Bahrein e no Marrocos.
Para variar, temos prazer em mostrar as barbaridades contra os direitos humanos perpetradas por nossos inimigos, mas somos complacentes com as ditaduras amigas.
Por enquanto, a Arábia Saudita, a pior ditadura da região e o país mais fechado do mundo, passa, mais uma vez, incólume. Esperemos que os povos árabes percebam que, após Gaddafi, nada mais é impossível e que os levantes sejam amplos, gerais e irrestritos.
Mais uma vez, fica claro como as dicotomias herdadas do século passado (abertura política ou a luta contra o fundamentalismo, o nacionalismo ou o apoio a potências coloniais) deixaram de ter relevância. Agora, joga-se outro jogo.

domingo, 21 de agosto de 2011

DA FOLHA: Supercookie é a nova ameaça à privacidade


Eles podem recriar os perfis dos usuários

DE NOVA YORK

Manter a privacidade na internet está cada vez mais difícil. Grandes empresas estão usando agora arquivos que conseguem rastrear o histórico do internauta mesmo quando ele apagou seus registros do computador.
Estudo feito pela Universidade Stanford e pela Universidade da Califórnia apontou que grandes sites, como MSN, da Microsoft, e Hulu, de vídeos, estão usando os chamados "supercookies".
Eles são capazes de recriar os perfis dos usuários depois que as pessoas apagaram os cookies comuns.
Os cookies são pequenos arquivos que mantêm registros dos sites visitados. Eles acabam ditando a publicidade que as pessoas veem na internet, baseado nos sites que as pessoas costumam visitar.
Além de recriar o perfil do usuário, o supercookie, que é legal nos EUA, é considerado mais difícil de apagar.
A Microsoft disse que já apagou o código, e o Hulu afirmou que agiu "imediatamente para investigar e tratar" a questão. (ÁLVARO FAGUNDES)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

BRASILEIROS CANSADOS DAS REDES SOCIAIS

FOLHA

Brasileiros estão entre os mais cansados das redes sociais

Pesquisa considera 11 países; até 40% dos brasileiros e russos usam menos esses sites do que quando entraram

ÁLVARO FAGUNDES
DE NOVA YORK

JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA

Os brasileiros costumam aparecer entre os que mais usam redes sociais como Facebook e Twitter, mas uma pesquisa aponta agora que eles também estão entre os mais cansados dessas mídias.
De acordo com o levantamento realizado pela consultoria Gartner em 11 países, os brasileiros, ao lado do russos, estão entre os menos entusiasmados.
Nos dois mercados, entre 30% e 40% dos entrevistados afirmaram que usam menos esses sites agora do que quando se inscreveram.
O resultado sinaliza a perda de espaço do Orkut no Brasil, com o site do Google ainda na liderança, mas cedendo lugar para Facebook, Twitter e até mesmo para o Google+, a mais recente e ambiciosa aposta da companhia norte-americana no setor.
O resultado da pesquisa contrasta com mercados de redes sociais que são considerados mais maduros.
Nos Estados Unidos, no Japão e no Reino Unido, por exemplo, a perda de entusiasmo gravita em torno de 20%. Outros 40% afirmam que usam esses sites mais agora do que no início.
Na Itália e na Coreia do Sul , cerca da metade dos entrevistados disse que o entusiasmo agora é maior.
Segundo a pesquisa, 24% das pessoas afirmaram que estão hoje menos entusiasmados com as redes sociais.

REDES SOCIAIS
A pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem mostrou que 8,8% da população brasileira tem Twitter, 27,3%, Orkut, e 15,8%, Facebook.
O levantamento indica que 42,4% dos entrevistados têm internet, seja em casa (21,4%), seja em casa e no trabalho (17,6%), seja somente no trabalho (3,4%).
Entre os que têm acesso à internet, 60,1% usam a rede todos os dias, e 23,2%, mais de uma vez na semana.
Fazendo o corte entre os que dizem usar a internet, as redes sociais aparecem com mais força: 64,5% afirmam ter perfil no Orkut, 37,4% usam o Facebook e 20,8% acompanham o Twitter.

NOVA LEI DA TV A CABO: BOA PARA A NET, RUIM PARA A NET

FOLHA

Congresso libera TV a cabo para as teles

Com a mudança, as operadoras de telefonia fixa vão poder controlar empresas de televisão por assinatura

Nova lei também acaba com restrição a estrangeiros; Embratel poderá assumir Net, e Telefônica, a TVA
SOFIA FERNANDES
VALDO CRUZ

DE BRASÍLIA

O Senado aprovou ontem o projeto de lei que abre o mercado de TV a cabo para as empresas de telecomunicações nacionais e estrangeiras e define cotas nacionais de programação.
O texto vai a sanção presidencial. O projeto unifica a regulamentação de TV por assinatura, seja via satélite, cabo ou micro-ondas, e derruba a legislação específica para TV a cabo hoje em vigor.
A atual lei do cabo proíbe que teles estrangeiras controlem TV a cabo. As nacionais também eram proibidas, mas a Anatel estava mudando essa determinação.
Agora, as teles ficarão legalmente liberadas para controlar empresas do setor. Com isso, o governo espera ampliar a competição de TV por assinatura, baratear o serviço e usar o negócio como um vetor de crescimento de conexões à banda larga.
As empresas de telefonia fixa poderão vender os chamados "combos" de TV paga, telefone e banda larga. O projeto, porém, mantém as teles fora do processo de produção de conteúdo.
O projeto de lei define ainda cotas para produção nacional. Os canais deverão veicular três horas e meia por semana de conteúdo produzido no Brasil das 18h às 22h.
Há ainda a determinação de que metade da cota nacional seja produzida por empresas que não sejam vinculadas a grupos de radiodifusão. Será um total semanal de uma hora e 45 minutos de programação independente.
O texto, que tramitava havia quatro anos, determina à Ancine a função de verificar o cumprimento dessa meta de veiculação de conteúdo brasileiro e independente. O papel da agência foi a principal crítica da oposição.
O senador José Agripino Maia (DEM-RN) afirmou que, apesar de votar a favor do projeto, entrará com uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade) contra a atribuição de tarefas à Ancine.
O relator do projeto, senador Walter Pinheiro (PT-BA), afirmou que não há delegação de funções novas à Ancine, que já tem a tarefa de regulação do setor.
O texto foi aprovado no Senado sem modificações. O projeto acaba com o limite de participação estrangeira no setor de TV a cabo no país, que era limitado a 49%.

CONSOLIDAÇÃO
O mercado já aposta em mudanças no setor com a aprovação da lei. O negócio mais esperado é a troca de comando na Net, hoje controlada pelas Organizações Globo. O empresário mexicano Carlos Slim e dono da Embratel, sócio na TV a cabo, deve assumir o controle da empresa.
A Telefônica deverá assumir o controle da TVA. Para a empresa, o cliente ganhará com a maior concorrência. "O principal beneficiado será o consumidor, que terá à disposição um leque maior de opções de provedores ofertando TV por assinatura", diz a empresa. Net e Oi não se pronunciaram.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MANCHETE DO VALOR: CRISE CRIA PECHINCHAS NA BOLSA

VALOR


Pânico cria 'pechinchas' na bolsa
O investidor com sangue-frio encontra hoje uma série de oportunidades na bolsa de valores, que acumula queda de 26,19% no ano. A trégua no mau humor, ontem, com o Ibovespa em alta de 5,10%, não foi suficiente para tirar a atratividade de muitas ações.
Levantamento feito pelo Valor Data mostra que, das 58 ações de empresas com balanço consolidado que compõem o Índice Bovespa, 21 delas, ou 36,20%, vêm sendo negociadas abaixo de seu valor patrimonial. No início do ano, apenas 6 compunham essa lista. O estudo considerou apenas ações de maior liquidez.
Saldão da crise

Luciana Monteiro | De São Paulo
A queda de 13,04% do Índice Bovespa neste mês, que elevou para 26,19% as perdas no ano até ontem, abriu uma série de oportunidades na bolsa para o investidor que tem sangue-frio e que acredita que pode obter ganhos no longo prazo, apesar da forte volatilidade vista nos últimos dias. Mesmo a trégua do mau humor visto ontem, com o Ibovespa em alta de 5,10%, não foi suficiente para tirar a atratividade de muitas ações.
Levantamento realizado pelo Valor Data mostra que, das 58 empresas com balanço consolidado que compõem o Índice Bovespa, 21 delas, ou 36,20%, vêm sendo negociadas abaixo de seu valor patrimonial, ou seja, abaixo do patrimônio líquido da empresa. Só para se ter ideia, no início deste ano, apenas seis companhias eram negociadas abaixo de seu valor patrimonial. O estudo considerou apenas uma ação por empresa, a de maior liquidez.
Batizado de P/VPA (preço sobre valor patrimonial), este é um indicador bastante usado pelos analistas para saber se um papel está caro ou barato. Quando esse índice está abaixo de 1, pode significar que a companhia está uma barbada, ou seja, se mostra subavaliada em relação aos ativos que possui. Claro que o investidor não deve olhar apenas o P/VPA na hora de escolher um papel, já que, isoladamente, ele não mostra que a empresa é um ótimo negócio. Mas o índice pode dar uma ideia do potencial de valorização de uma ação, principalmente quando se fala de papéis que compõem o Ibovespa.
Nos últimos dias, quando o pânico tomou conta do mercado diante das expectativas de uma recessão nos Estados Unidos, desaceleração do crescimento global e dúvidas com a solvência de Itália e Espanha, as pessoas passaram a vender suas ações de maneira muito pouco racional, diz Alexandre Espírito Santo, economista da Way Investimentos e professor de finanças da ESPM-RJ e Ibmec-RJ. Para ele, o fato de vários papéis estarem sendo negociados abaixo do patrimônio líquido da empresa já é um sinal de que as vendas são fruto de um movimento de pânico, sem que o investidor olhe os fundamentos das empresas.
Entre as companhias negociadas abaixo de seu valor patrimonial e que integram o Ibovespa aparecem, por exemplo, as preferenciais (PN, com direito a voto) da Petrobras, as ordinárias (ON, com voto) da empresa de bens de consumo Hypermarcas, além de Gafisa ON, Gol PN e Gerdau PN. As empresas de telefonia Brasil Telecom e Telemar também integra a lista.
O forte movimento de vendas dos últimos dias foi comandado principalmente pelos investidores locais, enquanto os estrangeiros continuaram a colocar dinheiro na bolsa brasileira. Em agosto, até o dia 5, a entrada líquida (compras menos vendas) de recursos externos na bolsa foi de R$ 382,4 milhões. Na ponta oposta, os institucionais acumulam saída de R$ 727,5 milhões, enquanto o investidor pessoa física mostrou retirada líquida de recursos de R$ 356,7 milhões. Mas os dados ainda não contemplam a movimentação de segunda-feira, quando o Ibovespa caiu 8,08%.
Em momentos de pânico, a maioria dos investidores vende suas ações a qualquer preço e é quando surgem ótimas oportunidades, afirma Paulo Levy, diretor-executivo da Icap do Brasil. Para ele, a volatilidade da bolsa deve continuar alta e as chances de novas perdas não podem ser descartadas. Esse tipo de distorção, no entanto, de empresas sendo negociadas abaixo de seu valor patrimonial, deve ser eliminada. "O investidor com visão de médio prazo pode se aproveitar para comprar ações a preços mais baixos."
Na avaliação de Levy, o cenário atual é complicado diante da possibilidade de uma recessão, mas nada que se compare ao risco sistêmico visto durante a crise de 2008. O desespero apresentado pelos investidores, no entanto, foi praticamente o mesmo visto há três anos, diz o executivo, que continua acreditando nos bons desempenhos dos setores de consumo e bancos.
Há uma semana, ao analisar um universo de 265 ações da Bovespa, o professor Espírito Santo constatou que 23% delas estavam sendo negociadas abaixo do valor patrimonial. Agora, dias depois, esse número subiu para 33,5%. "E os números mostram que as empresas brasileiras vêm apresentando resultados interessantes, portanto, neste momento é preciso sangue-frio para não sair vendendo papéis bons", diz ele.
A queda da bolsa trouxe tantas oportunidades que escolher hoje uma boa ação não requer prática nem experiência, brinca Fernando Camargo, sócio da Orbe Investimentos. "Momentos como este são bons não apenas para olhar novas oportunidades, mas para elevar a exposição em boas ações que já estavam em carteira", diz. Ele ressalta ainda que mesmo fora do Ibovespa há papéis em níveis bastante interessantes, como GP ou BicBanco.

MARCOS COIMBRA: FOLHA ESCONDE PESQUISA FAVORÁVEL A DILMA

MARCOS COIMBRA


O governo e as pesquisas

Parece que a imprensa gostou do novo tipo de pesquisa que ela própria criou em junho: a pesquisa ignorada. Acaba de sair a segunda rodada, com trabalhos de campo realizados entre 2 e 5 de agosto. O instituto responsável é o mesmo Datafolha e a pesquisa tem muitas similaridades com a outra.
O mais interessante não é que os resultados de ambas sejam, basicamente, idênticos, mostrando que os níveis de aprovação do governo Dilma são elevados. A principal semelhança é a indiferença com que foram tratadas, igual àquela que os veículos dedicam às de origem dúbia, que podem até ser divulgadas, mas sem destaque ou comentário.
Como não é assim que os trabalhos do Datafolha costumam ser avaliados, o silêncio deve ter outra explicação. Talvez tenham sido acolhidos desse modo por não mostrarem aquilo que se achava que deveriam apontar.
É, no fundo, engraçado que um jornal mande fazer uma pesquisa ouvindo quase 5,3 mil pessoas (a um preço nada baixo) e a trate como material de segunda. Na edição em que foi divulgada, a notícia estava na primeira página, mas ocupava espaço igual ao do título que dizia que "Os paraguaios são a nova mão de obra das confecções do Bom Retiro" (o que, na melhor das hipóteses, é de interesse puramente paroquial).
É, também, curioso que um novo investimento tenha sido feito tão pouco tempo depois do anterior. Entre a pesquisa de junho, concluída no dia 10, e a de agosto, passaram-se apenas sete semanas, período bem mais curto que o padrão adotado pelo instituto no acompanhamento dos quatro últimos governos: seja nos de Fernando Henrique, seja nos de Lula, o normal havia sido fazer levantamentos a cada três meses (ou mais).
De acordo com a pesquisa, o governo Dilma é considerado "ótimo" ou "bom" por 48% dos entrevistados, taxa igual à de março (47%) e junho (49%). A presidente bisou o desempenho de Lula em novembro de 2007 (quando foi feito o terceiro levantamento do Datafolha naquele ano), superou o que ele alcançava em agosto de 2003 (que tinha sido de 45%), o de FHC em setembro de 1995 (que fora de 42%) e, de longe, o dele em setembro de 1999 (de apenas 13%, em função da volatilidade da moeda naquele momento), sempre de acordo com o instituto paulista.
Em outras palavras: Dilma está à frente de um governo amplamente aprovado pela população. Somente o consideram "ruim" ou "péssimo" 11% dos eleitores, o que quer dizer que apenas uma em cada 10 pessoas está insatisfeita.
Na imprensa, os poucos que discutiram os números ficaram mais preocupados em desmerecê-los que explicá-los, o que se evidenciou no intenso uso de conjunções e locuções que os gramáticos chamam "subordinativas concessivas" (embora, apesar de, não obstante, etc.), em construções como "apesar da crise, ainda desfruta...", "mesmo com as demissões (de ministros) mantém...", "48% aprovam apesar de...".
Se os cidadãos vissem o governo através dos olhos da chamada "grande imprensa", não faria, de fato, sentido que o avaliassem de maneira positiva. A rigor, se o Brasil retratado por ela coincidisse com aquele que a população experimenta na sua vida, o que deveríamos ter era uma inversão nas proporções de aprovação/reprovação.
Ao que parece, não é isso que acontece. O Brasil vivido pela vasta maioria dos brasileiros não tem quase nada a ver com aquele que aparece nessa imprensa.
Sempre se pode dizer que o povo é ignorante e que aplaude o governo porque não sabe de nada. Sempre se pode adotar um tom de pretensa superioridade, de quem acha que a popularidade de Dilma (e de Lula) se explica pelos R$ 10 que o cidadão paga de prestação pela torradeira. Sempre se pode achar que os pobres pensam com a barriga e só os bem nascidos com o intelecto.
O certo é que havia uma expectativa de que Dilma caísse nas pesquisas. Maior que a que existia em junho, quando da "crise Palocci", pois tudo teria piorado: mais "crises", mais "desgastes", mais "preocupações".
A pesquisa foi encomendada para mostrar a queda e, como não a confirmou, foi para a geladeira. O mesmo destino que teve a antecedente e que terão as próximas. Até que saia uma em que ela oscile negativamente. Aí teremos o carnaval que vem sendo postergado.

A URGÊNCIA DE INVESTIR EM ARMAMENTO

DA FOLHA

ANTONIO DELFIM NETTO

Prioridades 

Quatro eventos recentes são exemplos de que a racionalidade que preside o processo civilizatório não está garantida:
1º) O cabo de guerra entre os republicanos e os democratas nos EUA aumentou a incerteza sobre a qualidade e a funcionalidade da administração da maior economia do mundo.
Uma lamentável falta de liderança mostrou maior preocupação com interesses eleitoral-paroquiais, do que com o papel moral e material que se esperava da nação que se pretende o paradigma do regime republicano;
2º) A inacreditável tragédia norueguesa produzida pelas mãos de um demente foi instrumentalizada pela regressão do espírito civilizatório revelada no avanço do extremismo racial e religioso que, um pouco mais, um pouco menos, vem atacando todos os países;
3º) A separação que se aprofunda entre os interesses materiais de longo prazo da China e dos EUA tem grandes consequências para a estabilidade do Oriente Médio e da Ásia. O exemplo é o apoio dissimulado da China (e da Índia) ao Irã com a troca física (em acordo de liquidação recíproca) de fornecimento permanente de petróleo -inclusive com a construção de um oleoduto- por bens industriais chineses, o que ilide o "embargo" da ONU (de efeito duvidoso) que tenta impedir a criação de mais uma potência atômica e
4º) O claro aprofundamento dos investimentos militares da China e da Índia. A ênfase da primeira na expansão de sua marinha para o domínio do chamado "mar da China", com vistas à busca de recursos naturais, revela que ela (como toda "potência", particularmente os EUA) está também à procura das três autonomias: a alimentar (a China já é a maior produtora de alimentos do mundo e graças à tecnologia que está gerando com rapidez pode crescer muito mais); a energética (que desenvolve a partir do carvão e agora do gás, eólica e outras tecnologias de ponta); e a militar que ela expande rapidamente.
O desenvolvimento dos países emergentes nos próximos dez anos vai se dar num ambiente de estresse crescente pela disputa de recursos naturais na terra e no mar. Países que, como o Brasil, abdicaram da autonomia "militar", mas dispõem de recursos naturais, precisam ter esse quadro em mente e insistir na construção de Forças Armadas enxutas, bem treinadas e com adequado poder "dissuasivo".
Não é exagero dizer que investimentos numa indústria bélica eficiente e competitiva externamente, inclusive a ênfase no domínio da tecnologia atômica, provavelmente mostrarão -em dez anos- uma taxa de retorno social superior à daqueles que hoje ocupam nível mais alto em nossas prioridades. Como disse o ilustre ministro Celso Amorim, "um país pacífico não pode ser confundido com um país desarmado e indefeso".

terça-feira, 9 de agosto de 2011

KRUGMAN PÕE S&P NO SEU DEVIDO LUGAR

NEW YORK TIMES


Credibilidade, cara de pau e dívida :: Paul Krugman


Para compreender todo o furor envolvendo a decisão da Standard & Poor"s, a agência de classificação de crédito, de rebaixar a nota dos títulos da dívida americana, é preciso ter em mente duas ideias aparentemente (mas não de fato) contraditórias. A primeira é que os Estados Unidos não são mais o país estável e confiável de antes. A segunda é que a própria S&P goza de credibilidade ainda menor; é o último lugar de onde alguém deveria esperar avaliações sobre as perspectivas do país.

Comecemos com a falta de credibilidade da S&P. Se há uma expressão que descreve a decisão da agência de classificação de crédito de rebaixar a nota dos EUA, esta é a cara de pau - definida pelo exemplo do jovem que mata os pais e então implora por clemência alegando ser um órfão.
Afinal, o imenso déficit orçamentário dos EUA é em grande parte resultado de um declínio econômico que se seguiu à crise financeira de 2008. E a S&P, juntamente com as demais agências de classificação de crédito, desempenhou papel importantíssimo na precipitação dessa crise, concedendo notas AAA a ativos lastreados em hipotecas que desde então se transformaram em lixo tóxico.
Mas as avaliações incompetentes não pararam por aí. Num episódio agora famoso, a S&P concedeu ao Lehman Brothers, cujo colapso deu início a um pânico global, uma nota A até o mês da sua quebra. E qual foi a reação da agência depois que esta empresa foi à falência? Ora, a S&P publicou um relatório negando ter feito qualquer coisa de errado.
E são estas as pessoas que agora dão sua eminente opinião sobre a credibilidade dos Estados Unidos?
Espere só, a coisa não para por aí. Antes de rebaixar a nota da dívida americana, a S&P enviou ao Tesouro dos EUA um rascunho do seu comunicado à imprensa. Os funcionários americanos logo repararam num erro de US$ 2 trilhões nos cálculos, algo que qualquer especialista em orçamento teria calculado corretamente. Depois de certo debate, a S&P reconheceu o erro e rebaixou a nota mesmo assim.
Num ponto mais amplo, as agências de classificação de crédito nunca nos deram motivo para levar a sério suas opiniões sobre a solvência nacional. É verdade que, em geral, os países que declararam moratória tiveram suas notas rebaixadas antes da consumação desse fato.
Mas, nesses casos, as agências de classificação apenas seguiram os mercados, que já tinham se voltado contra esses devedores problemáticos. E, nos raros casos em que as agências rebaixaram a nota de países que ainda tinham a confiança dos investidores - como os EUA hoje -, elas se mostraram equivocadas.
Devemos lembrar do caso do Japão, que teve a nota de sua dívida rebaixada pela S&P em 2002. Ora, nove anos mais tarde, o Japão ainda consegue obter empréstimos com facilidade e a juros baixos. Na verdade, na sexta-feira, os juros sobre as obrigações japonesas com prazo de 10 anos eram de apenas 1%.
Assim, não há motivo para levar a sério o rebaixamento da nota da dívida americana na sexta feira. Estamos falando das últimas pessoas de quem deveríamos aceitar conselhos.
Dito isto, os EUA têm diante de si grandes problemas.
Esses problemas estão pouco relacionados com a aritmética orçamentária de curto e mesmo médio prazos. O governo americano não tem problemas para solicitar empréstimos capazes de cobrir seu déficit. É verdade que o endividamento está se acumulando, e sobre essa dívida os americanos terão de pagar juros. Mas, se fizermos as contas, em vez de enunciar números assustadores, perceberemos que nem mesmo imensos déficits nos próximos anos terão impacto na sustentabilidade fiscal dos EUA.
Ora, não é a matemática orçamentária que está fazendo com que os EUA pareçam pouco confiáveis, e sim a política. E por favor, não comecemos com as declarações habituais que responsabilizam ambos os lados. Nossos problemas são causados por um único lado - mais especificamente, são provocados pela ascensão de uma direita extremista que prefere criar crises a ceder um único centímetro nas suas exigências.
É verdade que, mantidas as políticas atuais, uma população de idade cada vez mais avançada e o custo cada vez mais alto do sistema de saúde acabarão fazendo com que os gastos aumentem mais do que as receitas. Mas os EUA apresentam um gasto com a saúde muito maior do que o de outros países avançados, e sua carga tributária é considerada muito pequena comparada aos padrões internacionais. Se pudéssemos ao menos nos aproximar um pouco mais daquilo que é internacionalmente considerado normal para esses dois dados, nossos problemas orçamentários seriam solucionados.
E o que nos impede de fazer isso? O problema é que temos neste país um poderoso movimento político que preferiu correr o risco de uma catástrofe financeira em vez de concordar em aceitar um aumento nos impostos cobrados, por menor que fosse.
Mesmo em termos fiscais, o verdadeiro problema dos EUA não é se o país conseguirá cortar do déficit um trilhão aqui ou acolá. A questão é saber se os extremistas que agora bloqueiam todo tipo de medida política razoável podem ser derrotados. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

SAFATLE/AS JOVENS MARIAS ANTONIETAS DIANTE DA REVOLTA DOS JOVENS

DA FOLHA

VLADIMIR SAFATLE

Maria Antonieta

Em 2006, a cineasta Sofia Coppola lançou um filme sobre Maria Antonieta. Ao contar a história da rainha juvenil que vivia de festa em festa enquanto o mundo desabava em silêncio, Coppola acabou por falar de sua própria geração.
Esta mesma que cresceu nos anos 1990.
No filme, há uma cena premonitória sobre nosso destino. Após acompanharmos a jovem Maria por festas que duravam até a manhã com trilhas de Siouxsie and the Ban- shees, depois de vermos sua felicidade pela descoberta do "glamour" do consumo conspícuo, algo estranho ocorre.
Maria Antonieta está agora em um balcão diante de uma massa que nunca aparece, da qual apenas ouvimos os gritos confusos. Uma massa sem representação, mas que agora clama por sua cabeça.
Maria Antonieta está diante do que não deveria ter lugar no filme, ou seja, da Revolução Francesa. Essa massa sem rosto e lugar é normalmente quem faz a história. Ela não estava nas raves, não entrou em nenhuma concept store para procurar o tênis mais stylish.
Porém ela tem a força de, com seus gritos surdos, fazer todo esse mundo desabar.
Talvez valha a pena lembrar disso agora porque quem cresceu nos anos 1990 foi doutrinado para repetir compulsivamente que tal massa não existia mais, que seus gritos nunca seriam mais ouvidos, que estávamos seguros entre uma rave, uma escapada em uma concept store e um emprego de "criativo" na publicidade.
Para quem cresceu com tal ideia na cabeça, é difícil entender o que 400 mil pessoas fazem nas ruas de Santiago, o que 300 mil pessoas gritam atualmente em Tel Aviv.
Por trás de palavras de ordem como "educação pública de qualidade e gratuita", "nós queremos justiça social e um Estado-providência", "democracia real" ou o impressionante "aqui é o Egito" ouvido (vejam só) em Israel, eles dizem simplesmente: o mundo que conhecemos acabou.
Enganam-se aqueles que veem em tais palavras apenas a nostalgia de um Estado de bem-estar social que morreu exatamente na passagem dos anos 1980 para 1990.
Essas milhares de pessoas dizem algo muito mais irrepresentável, a saber, todas as respostas são de novo possíveis, nada tem a garantia de que ficará de pé, estamos dispostos a experimentar algo que ainda não tem nome.
Nessas horas, vale a lição de Maria Antonieta: aqueles que não percebem o fim de um mundo são destruídos com ele. Há momentos na história em que tudo parece acontecer de maneira muito acelerada.
Já temos sinais demais de que nosso presente caminha nessa direção. Nada pior do que continuar a agir como se nada de decisivo e novo estivesse acontecendo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DISCURSO DE DILMA NA POSSE DE CELSO AMORIM

Mudanças importantes sempre provocam tensão. Mas elas requerem cuidado, elas cobram sensatez e exigem escolhas bem refletidas. E foi com cuidado e com a devida reflexão que eu convidei o embaixador Celso Amorim para o cargo de ministro da Defesa.
O convoquei porque tenho convicção de que ele é o homem certo para o lugar certo. Muitos projetos estratégicos para o país e para o nosso futuro estão em andamento lá no Ministério da Defesa. São projetos que não podem, em hipótese alguma, sofrer rupturas, atrasos ou adiamentos. Eu escolhi o ex-ministro Celso Amorim porque eu tenho certeza absoluta de que com ele esses projetos terão continuidade e ganharão mesmo maior velocidade e solidez.
            Celso Amorim é um homem de Estado, um funcionário de carreira, um profissional dedicado ao Brasil. Foi assim como Chanceler, durante o governo de Itamar Franco; foi assim como nosso representante na ONU e em organismos internacionais de comércio, durante o governo Fernando Henrique Cardoso; e foi assim também como ministro das Relações Exteriores do governo do nosso querido presidente Lula, quando o Brasil foi elevado à condição de protagonista, com voz ativa no cenário mundial e sujeito do seu próprio destino.
            Celso Amorim tem qualidades pessoais que o aproximam muito dos senhores, militares de longa formação: cultura e preparo técnico, coleguismo e solidariedade no ambiente de trabalho, moderação nas manifestações públicas, elegância no relacionamento, profissionalismo e método na atividade como homem público. Sobretudo, disciplina e respeito à hierarquia. Na verdade, Celso Amorim é um patriota, Celso Amorim é um homem talhado para esta fase do Brasil, que é um país de cabeça erguida, consciente da sua soberania.
            Falo aqui, na verdade, de características da formação militar e da formação diplomática, duas carreiras de Estado. Não tenham dúvida: com o meu apoio e sob meu comando direto, ele ajudará muito o Ministério da Defesa a vencer os seus maiores desafios, tanto os mais urgentes, os mais conjunturais, quanto os mais estratégicos.
            A experiência de Celso Amorim em política externa será valiosa para o Ministério da Defesa. O Brasil enfrentará importantes questões que envolvem diretamente as nossas Forças Armadas: há acordos bilaterais em andamento, há negociações sobre compra de armamento e aquisição de tecnologia bélica, além da inadiável exigência de proteção e controle de nossas fronteiras terrestres e de nosso mar territorial, com suas – como todos sabem – enormes riquezas.
            O meu governo – e eu acredito que todo e qualquer governo – tem ministérios cuja importância estratégica para o país impõem rigorosa distância de injunções externas de qualquer tipo – o Ministério da Defesa é um deles. A lógica do Ministério da Defesa é a disciplina, a competência e a dedicação. A ideologia do Ministério da Defesa é o respeito à Constituição e a subordinação aos interesses nacionais. O partido do Ministério da Defesa é a pátria. Os senhores sabem disso, o novo Ministro sabe disso, e todos sabemos que trocas de comando fazem parte da rotina, desde que se troque o comandante, mas não se deixe de fazer o que precisa ser feito.
            Eu tenho absoluta certeza de que esse brasileiro chamado Celso Amorim fará não só o que precisa ser feito, mas dedicar-se-á de corpo e alma a construir esta política de defesa, esta estratégia nacional de defesa, que a todos nós é muito cara.
            Desejo boa sorte a todos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

MOISÉS NAIM/MESMO EM QUEDA, EUA SÃO GRANDES

MOISÉS NAÍM

Interpretação errada dos EUA



Wall Street, Vale do Silício, universidades e outras fontes de onde emana o poder continuam sólidas

DE ACORDO com o comentarista Christopher Hitchens, "a crise financeira dos EUA é o exemplo mais recente da tendência que ameaça colocar esse país no nível de Zimbábue, Venezuela ou Guiné Equatorial". Não, contra-ataca Nicholas Kristof, influente colunista do "New York Times": "É a má distribuição da renda que põe os EUA no mesmo nível de repúblicas de bananas como Nicarágua, Venezuela ou Guiana". Nada disso, afirma Vladimir Putin: "O que acontece é que os Estados Unidos são um parasita que vive à custa da economia global".
Para Mitt Romney, pré-candidato presidencial republicano, o problema é que "os EUA estão a ponto de deixar de ser uma economia de mercado". E Barack Obama lamenta que seu país "não tenha um sistema político AAA, condizente com seu crédito AAA".
Nos últimos dias, vem sendo demasiado fácil concluir que os EUA são um desastre e não poderão continuar a ser o país mais poderoso do mundo. Para quem ainda tinha dúvidas, o vergonhoso processo de negociação sobre o limite da dívida foi a confirmação final: a superpotência se encontra em queda livre.
Essa conclusão, que parece tão óbvia, está errada. Por pelo menos quatro razões.
Primeiro: Wall Street, o Pentágono, Hollywood, o Vale do Silício, as universidades e outras fontes de onde emana o poder americano continuam sólidas. Haverá cortes orçamentários que afetarão setores como as Forças Armadas. Mesmo assim, a vantagem atual dos EUA nesses setores sobre rivais de outros países é tão enorme que os cortes não o tirarão do primeiro lugar mundial.
Exemplo: só a frota da Guarda Costeira dos EUA tem mais navios que todas as embarcações das 12 maiores Marinhas de guerra do globo. Não é em vão que os EUA gastam mais com a defesa que o resto do mundo. As demais fontes de poder dos EUA enfrentam mais competidores, mas sua vantagem sobre seus rivais também é imensa.
Segundo: o poder absoluto não importa. O que importa é o poder relativo aos rivais. Embora os EUA possam estar se enfraquecendo e declinando em poder absoluto, seus competidores também estão passando por problemas e enfrentam desafios difíceis e ameaças internas e externas, políticas e econômicas.
Terceiro: a demografia. Em quase todos os países ricos, a população está crescendo muito lentamente ou está diminuindo. Nos EUA, está crescendo. Apesar de suas medidas recentes anti-imigrantes, os EUA continuam a ser o mais forte polo de atração de talentos do mundo. Também é país que integra os imigrantes mais rapidamente e os aproveita melhor -especialmente os imigrantes mais bem formados.
Quarto: a influência de ideias radicais e debilitantes será transitória. A ascensão de grupos com ideias radicais que ganham rapidamente influência significativa e dominam o cenário político, para depois sumirem com igual rapidez, é fenômeno recorrente nos EUA. O macartismo e os vários movimentos populistas são exemplos. Ross Perot é outro. E o Tea Party será mais um.
Os EUA enfrentam problemas enormes? Sim. Estão enfraquecidos? Sim. Mais que outros países? Não.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A POLÊMICA SOBRE O TREM-BALA: UMA OPINIÃO A FAVOR E A CRÍTICA DE SERRA

FOLHA/ANTT RESPONDE A SERRA SOBRE TREM-BALA

folha

O debate sobre o trem de alta velocidade

BERNARDO FIGUEIREDO



A falta de propostas no leilão reflete tentativa do mercado de construir condições mais confortáveis de orçamento e participação pública no TAV


O projeto do trem de alta velocidade no eixo Rio-São Paulo-Campinas tem sido abordado de forma passional, pouco comprometida com a qualificação do debate e sem lastro em informações consistentes. É necessário, primeiro, entender que a infraestrutura para o transporte de pessoas nesse eixo já se encontra saturada.
Eliminar esse gargalo é prioridade porque contribui para a sustentabilidade do desenvolvimento e gera externalidades positivas para a região e para o país.
Construir novas rodovias e novos aeroportos não é solução sustentável do ponto de vista social, econômico e ambiental.
A ferrovia recuperou sua competitividade pelo aumento da velocidade de seus trens e é considerada, internacionalmente, a solução mais adequada em situações como a desse eixo. Além disso, é a que melhor atende ao usuário com relação ao tempo de viagem, ao conforto, à previsibilidade, à regularidade e à segurança dos serviços.
Criar infraestrutura que limite a velocidade dos trens não gera economia que justifique impor ao país absorver uma tecnologia hoje já superada. A necessidade de minimizar os impactos do projeto nas contas públicas conduziu a um modelo agressivo de participação privada no risco e na estruturação financeira do projeto.
No modelo inicialmente proposto, a participação pública estava limitada à garantia de financiamento e aos custos de desapropriação e licenciamento, e é estimada pelos críticos do projeto em R$ 8 bilhões.
A falta de propostas no leilão reflete uma tentativa do mercado de construir condições mais confortáveis de orçamento e participação pública, o que não permitiu um processo competitivo na licitação.
O novo modelo permitirá maior competitividade pela reorientação da gestão de riscos, e a competição levará à implantação do projeto em condições mais adequadas.
Implantar o trem de alta velocidade não significa negligenciar outras iniciativas do setor de transporte ferroviário. O governo introduziu no PAC, em 2007, o projeto do Ferroanel de São Paulo, que permitirá ampliar o transporte de passageiros e de cargas.
O governo federal apoia, via BNDES e Orçamento da União, todas as propostas de mobilidade urbana encaminhadas por Estados e municípios, e o PAC prevê investimentos de R$ 18 bilhões, cuja aplicação depende da gestão local dos projetos. O país constrói 5.000 km de novas ferrovias e projeta mais 8.000 km, uma ação inédita de expansão do sistema ferroviário.
A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) implanta nova regulação para as ferrovias, destinada a corrigir distorções no modelo de privatização adotado em 1996, que permitia às concessionárias manterem trechos importantes sem utilização adequada.
Não existe a possibilidade de não intervir no equacionamento do transporte de pessoas no eixo Rio-São Paulo, e não existe solução mais adequada do que o trem de alta velocidade. Resta enfrentar e superar as dificuldades com determinação e trabalho.

BERNARDO FIGUEIREDO, economista formado pela UnB, é diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).




ÚLTIMO ARTIGO DE SERRA CONTRA O TREM-BALA


UM TREM ALUCINADO



Tenho insistido bastante nos reparos ao projeto do trem-bala, que ligaria São Paulo e Rio de Janeiro. Custaria uns 65 bilhões de reais (o dobro do que o governo anunciou), só serviria a passageiros, não há demanda que o justifique, e, principalmente, existem muitíssimas outras prioridades, na região e no Brasil. Por exemplo, na área dos transportes urbanos sobre trilhos, nas grandes cidades, ou dos transportes ferroviários de carga, por todo o país. Já escrevi sobre isso neste site (nos artigos Um trem alucinadoO Desenvolvimento Adiado A pior ideologia é a incompetência), no twitter e no facebook. O trem bala nasceu como ideia eleitoral – para funcionar já na Copa do Mundo – e virou um capricho bilionário – que só ficaria concluído em 2020.
Lembrem que o projeto foi apresentado como sem custo para os contribuintes, pois o setor privado bancaria tudo. Isso é falso. Mas, mesmo se dispondo a por recursos próprios e dar pesados subsídios aos empresários, o governo não tem conseguido fazer o projeto andar, diante da falta de interessados. Depois do fracasso do último leilão, o Planalto mudou, então, sua estratégia, dividindo o projeto em três etapas e anunciando licitações para cada uma delas.
Não vou detalhar aqui agora a confusão e os aspectos obscuros que permeiam o novo modelo. Basta mencionar dois pontos mais claros. Em primeiro lugar, o governo se dispõe a bancar as receitas futuras do trem-bala: ou seja, se não houver número de passageiros suficiente, os leitores (e não leitores) de todo o Brasil pagarão a conta, remunerando as empresas que operarão o serviço, mesmo sem nunca chegarem perto desse trem. Dá para acreditar?
Em segundo lugar, depois de três anos do anúncio do trem-bala, o governo acaba de dizer que irá elaborar o projeto executivo da obra. Como afirmou um funcionário da Agência Nacional de Transportes Terrestres, decidiu-se não exigir que os consórcios privados interessados (sic) entregassem, “logo de cara”, um projeto executivo da obra. Pondera o funcionário ao jornal Valor Econômico: “Quem iria injetar mais R$ 500 milhões em um estudo detalhado como esse sem saber se vai ganhar o leilão? Não tem jeito, o governo tem que assumir esse custo”.
Não é fenomenal? O governo ia promover um leilão sem ter uma ideia mais concreta sobre como seria o trem-bala, pois não dispunha de um projeto executivo. Aprendeu agora, depois de anos, que precisa ele próprio fazer o projeto, antes das licitações. Tem razão, sem dúvida. Mas quem assume a responsabilidade pelo erro anterior?
Diga-se que o custo do projeto executivo é altíssimo: são 540 milhões de reais, a serem pagos pelos contribuintes. Aliás, para variar, esse custo está sendo subestimado em pelos menos 20%. Só resta, de fato, um pequeno consolo, mínimo, mas real: a elaboração do projeto executivo demorará um ano, segundo o governo, ou seja, pelo padrão de funcionamento do poder federal, não menos de uns 18 meses, se tudo andar depressa. Quem sabe até lá ocorra um acesso de sensatez em Brasília, e, mesmo lamentando os gastos inúteis já feitos, fiquemos livres dessa alucinação ferroviária?

DILMA: OPRESSIVO DESEQUILÍBRIO CAMBIAL CONTINUA

FOLHA

Dilma alerta para fluxo de capitais a emergentes

Para presidente, países ricos criam "opressivo desequilíbrio cambial"
Maior gestora mundial de fundos aconselha investimento no Brasil; especialistas preveem enxurrada de dólares 

ANA FLOR
DE BRASÍLIA

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
JULIANA ROCHA

DE SÃO PAULO

Apesar de a "marcha da insensatez" ter sido contida com o aumento do teto da dívida dos EUA, a presidente Dilma Rousseff ainda prevê tensão econômica internacional com reflexo nos países emergentes.
Poucas horas antes de o projeto ser votado no Congresso americano, mas já prevendo o resultado, a presidente fez um alerta sobre o aumento dos fluxos de capitais das economias ricas para as emergentes e os desequilíbrios cambiais que esse movimento provoca.
"Nós todos sabemos que vivemos um período de turbulência, em que o excesso de liquidez imposto pelos países ricos em direção aos emergentes resulta em opressivo desequilíbrio cambial", afirmou Dilma.
A enxurrada de dólares nos mercados emergentes provoca desvalorização em relação às moedas locais, tirando competitividade dos exportadores.
"O mundo viverá um longo período de tensão econômica, resultado dramático da insensatez, da incapacidade política e da supremacia de ambições regionais ou corporativas de alguns países sobre as necessidades globais", completou Dilma.
A preocupação do governo brasileiro se justifica pelos conselhos que a Pimco, maior administradora de fundos de investimentos do mundo, fez a investidores.
Bill Gross, administrador da Pimco, sugeriu em relatório ontem que o acordo de elevação do teto da dívida americana não melhora a situação fiscal dos EUA e os investidores deveriam deixar de comprar títulos americanos e comprar papéis do Brasil, México, Canadá e Alemanha.
"Optem por países com menos roupa suja e taxas de juros reais mais altas: Canadá, México, Brasil e Alemanha vêm à mente", diz Gross.
Ele sugere também que investidores evitem aplicar em índices baseados em dólar e optem por índices em moedas de países em desenvolvimento, com perspectiva de crescimento maior.
Analistas ouvidos pela Folha também apostam em uma derrama de dólares para os emergentes.
O mercado já espera uma nova rodada de estímulos monetários pelo Fed (banco central americano) para combater os efeitos danosos dos cortes fiscais na economia. Esta medida ajudará a aumentar a migração de dinheiro para emergentes.
"Os países em desenvolvido ficarão muito tempo em risco, e o mercado também passou a ser arriscado. É inevitável pensar em um fluxo maior para o Brasil", avalia o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.


DELFIM NA FOLHA/AOS QUE CRITICAM MEDIDAS DO GOVERNO NO CÂMBIO

FOLHA

ANTONIO DELFIM NETTO

Distorções

Analistas que se pensam portadores da "verdadeira" teoria econômica fizeram duras críticas às medidas complementares que, em legítima defesa, foram anunciadas pelo ministro da Fazenda.
Ninguém discute que seu uso precisa de moderação, porque tem larga influência na economia. As críticas mais ferozes, entretanto, foram fundadas numa proposição absolutamente infundada: que a liberdade de movimento de capitais está implícita na natureza das coisas, como as "vantagens comparativas".
Por que infundada? Porque, em primeiro lugar, com relação ao comércio de bens, a teoria das vantagens comparativas é pouco mais do que uma relação aritmética engenhosa, verdadeira por definição. Em segundo lugar, porque a sua extensão ao movimento de capitais é apenas mais uma das analogias despropositadas com frequência negadas empiricamente.
Basta dizer que uma de suas conclusões é que elas fluiriam para seu uso mais produtivo, como investimento físico, para os países com maior taxa de retorno físico, maximizando, assim, a taxa de crescimento mundial! Trata-se de pura teologia com chance de tornar-se "ciência" somente num mundo habitado por anjos...
O que revela a ampla, geral e irrestrita liberdade de movimento dos capitais? Apenas que ela, devido à flutuação do comportamento dos intermediários financeiros internacionais e da sua tendência à imitação e ao comportamento de "manada", cria movimentos destrutivos de "euforia" e "depressão" que perturbam as economias que, por motivos reais ou imaginários, escolhe como "bolas da vez".
Compromete a sua política monetária e retira da taxa de câmbio o papel decisivo de "preço relativo" que mantém em equilíbrio o balanço em conta-corrente. Até o FMI reconheceu isso, surpreendido pela crise de 2007-09.
São fatos claramente confirmados pela crise asiática de 1997-98 e, agora, no Brasil e em outros emergentes. Estes tornaram-se refúgio de incansáveis e espertos capitais bucaneiros sempre à procura de maior lucro financeiro. Retorno de qualquer natureza, menos o produzido pelo efetivo investimento direto que aumenta a oferta de bens e produtos, os únicos que realmente interessam aos emergentes.
Há dois sistemas financeiros: 1) o que está a serviço do processo produtivo de bens e serviços e é indispensável para o desenvolvimento econômico e 2) o que é um fim em si mesmo, controla o poder político dos Estados nacionais e, mais dia, menos dia, interrompe o "circuito econômico".
Não deixa de ser curioso ouvir que as medidas tomadas "causam distorções". Distorções em relação a quê? Ao sistema financeiro das "inovações", que se transformou em arma de destruição em massa?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PAUL KRUGMAN; TESTEMUNHAMOS UMA CATÁSTROFE

O presidente entregou os pontos
Paul Krugman
Um acordo para elevar o teto de endividamento federal está sendo costurado. Se aprovado, analistas comentarão que o desastre foi evitado. Mas eles estarão equivocados.
Pois o acordo em si, considerando os dados disponíveis, é um desastre, não apenas para o presidente Obama e seu partido. Ele vai afetar uma já deprimida economia; provavelmente vai tornar o problema do déficit americano a longo prazo pior; e, mais gravemente, ao provar que a extorsão funciona e não tem custo político, empurrará os EUA para um padrão República de Bananas.
Comecemos com a economia. Temos hoje uma economia profundamente deprimida. Provavelmente continuaremos a ter uma economia deprimida ano que vem. E provavelmente em 2013 também. A pior coisa que se pode fazer nessas circunstâncias é cortar os gastos do governo, pois isso aprofundaria a depressão. Não preste atenção àqueles que invocam a fada da confiança, afirmando que um aperto no Orçamento tranquilizará empresas e consumidores, levando-os a consumir. Não funciona assim, como mostra a História.
Aliás, cortar gastos com a economia deprimida não vai nem mesmo ajudar a situação fiscal, e pode até piorar as coisas. As atuais exigências de corte de custos são como aqueles médicos medievais que tratavam os doentes fazendo-os sangrar.
Há ainda os anunciados termos do acordo, que representam uma vergonhosa capitulação do presidente. Em primeiro lugar, haverá grandes cortes de gastos, sem aumento de receitas. Além disso, um comitê fará recomendações sobre futuras reduções - e, se essas recomendações não forem aceitas, haverá cortes de gastos compulsórios.
Os republicanos terão, supostamente, um incentivo para fazer concessões na próxima vez, pois os gastos com defesa militar estarão no pacote de cortes. Porém, o Partido Republicano já mostrou sua disposição de correr o risco de um colapso para obter o que os seus membros mais radicais querem. Por que esperar que eles serão mais razoáveis da próxima vez?
Aliás, os republicanos certamente se sentirão encorajados pela forma como Obama continua se dobrando às suas ameaças. Ele entregou os pontos em dezembro passado, aplicando as isenções de impostos de Bush; ele entregou os pontos recentemente quando eles ameaçaram fechar o governo; e agora entregou os pontos ante a extorsão sobre o teto do endividamento. Talvez seja apenas eu, mas vejo um padrão nisso.
E o presidente tinha alguma opção? Sim.
Ele poderia e deveria ter exigido um aumento do teto do endividamento em dezembro passado. Quando indagado por que não fez, ele disse ter certeza de que os republicanos agiriam de forma responsável. Que aposta. E mesmo agora, o governo Obama poderia ter recorrido a medidas legais, no mínimo, para fortalecer sua posição de negociação.
Não se engane, estamos testemunhando uma catástrofe em vários níveis. É uma catástrofe para os democratas, que há apenas algumas semanas pareciam ter atropelado o plano dos republicanos de desmantelar o Medicare; mas, agora, Obama jogou isso fora. A longo prazo, porém, os democratas não serão os únicos perdedores. O que os republicanos impuseram põe todo o sistema de governabilidade em questão.
PAUL KRUGMAN é colunista do "New York Times"

PILOTOS INTERNACIONAIS QUE NÃO SABEM INGLÊS

FOLHA

TAM usa pilotos reprovados no inglês em voo ao exterior

Medida contraria norma que exige nível mínimo do idioma para voar para fora

Mudança vigora desde maio; empresa diz que reprovados só operam quando aeronave está em território nacional

RICARDO GALLO
DE SÃO PAULO 

A TAM decidiu liberar pilotos reprovados em teste de inglês a trabalhar em voos internacionais -o que contraria regulamentos de aviação brasileiro e internacional.
Norma da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) inspirada em congêneres estrangeiras determina que pilotos tenham ao menos nível 4 ("operacional") de inglês para voos rumo ao exterior.
A TAM, no entanto, pôs pilotos com nível 3 ("pré-operacional") em rotas internacionais, revela documento da empresa obtido pelaFolha, datado de 25 de maio.
No documento, a companhia determina que os pilotos reprovados no inglês possam operar voos internacionais enquanto o avião sobrevoar o território brasileiro.
Ao entrar no exterior, um outro piloto assume o lugar daquele que fala mal o inglês; mais longos, esses voos usam três ou quatro pilotos.
O regulamento brasileiro de aviação civil, no entanto, não prevê essa possibilidade.
A decisão da TAM ocorreu após 13,8% dos seus cerca de 370 pilotos de voos internacionais terem sido reprovados em um teste de revalidação de inglês em abril e maio.
Esses pilotos foram rebaixados do nível 4 para o 3.
Um comandante de voo internacional da TAM disse à Folha que a medida foi tomada porque havia risco de cancelamento de voos por falta de pilotos em momento de alta demanda; a TAM nega e afirma que, atualmente, o índice de reprovados caiu para 5%, após parte deles se submeter a novos testes. O piloto, porém, fala em 20%.
Baseada em norma da Icao (Organização Internacional de Aviação Civil) e das agências americana (FAA) e europeia (Easa) de aviação, a regra estabelece que a exigência mínima de inglês "se aplica a qualquer voo internacional, e a todos os pilotos que compõem a tripulação", de acordo com o site da Anac.
Ao ser questionada sobre o assunto, a agência nacional, responsável por fiscalizar a TAM, informou não haver "evidências" de infração.
A Anac sabe há pelo menos um mês do problema.
A FAA (agência americana) e a Easa (europeia), onde estão oito dos 19 destinos internacionais da TAM, investigam o caso. A primeira, depois de procurada pela Folha, cobrou explicações da empresa e da Anac.
As agências podem impor multa à TAM e, no limite, suspender voos internacionais da empresa brasileira.

RISCO
Um piloto com inglês nível 3 pode falhar ao tentar compreender instruções ao lidar com "eventos inesperados", segundo classificação da Icao adotada pela Anac.
O piloto com quem a Folha conversou disse que a iniciativa sobrecarrega os demais tripulantes e pode trazer riscos à segurança, se, por exemplo, alguém passar mal e o piloto reprovado em inglês tiver que assumir o controle da aeronave e falar com a torre de outros países.
Uma ordem mal compreendida em inglês contribuiu para a colisão entre dois aviões em pleno ar na Índia, em 1996. O piloto de uma das aeronaves descera a um nível diferente daquele autorizado pela torre de controle. Morreram no acidente 349 pessoas.

AVAL INFORMAL
A Anac tem conhecimento da infração da TAM desde 1º de julho, segundo e-mail obtido pela Folha. Um fiscal relatou que a agência deu aval informal para o não cumprimento da norma. A agência não respondeu à Folha.
O e-mail foi endereçado a Carlos Pellegrino (diretor de operação de aeronaves) e a David da Costa Faria Neto (superintendente de segurança operacional).




OUTRO LADO

Para Anac e TAM, objetivo da norma não foi desrespeitado

DE SÃO PAULO 

Responsável pela fiscalização do setor aéreo, a Anac informou não ter evidências de que a TAM tenha descumprido o regulamento da aviação. A empresa, por sua vez, diz trabalhar dentro da lei.
Para a Anac, o "objetivo" da norma não foi desrespeitado, em razão de o piloto sem inglês mínimo trabalhar apenas em território nacional.
O regulamento brasileiro, inspirado em normas internacionais e que a agência usa para fiscalizar as empresas aéreas, não abre exceção.
Vice-presidente da TAM, Ruy Amparo disse estar "absolutamente" conforme a lei e refutou risco à segurança. "Esse piloto não opera em inglês." Como os reprovados têm se submetido a novos testes, a tendência é que sejam aprovados e o expediente deixe de ser usado rapidamente.
Amparo justificou a medida. Segundo ele, é importante manter os pilotos -mesmo os reprovados- em operação para que eles não percam a proficiência [em inglês]. "Deixar um piloto fora por 30 dias nunca é bom". A decisão de mantê-los no ar, afirmou, é auditável por autoridades.
O vice-presidente disse ainda que a TAM usa mais tripulação do que o exigido em alguns voos internacionais, como o para Frankfurt, em que tem quatro pilotos -a lei exige três. O voo tem 11 horas e 40 minutos; quatro pilotos são exigidos para voos com mais de 12 horas. "Falta você me dizer onde está a ilegalidade. Se a lei fala em voar com três e eu uso quatro, estou aumentando a redundância."
Segundo ele, a situação da TAM junto à FAA está correta.
Depois de falar com a Folha, as assessorias de imprensa da Anac e da TAM falaram entre si, informou a agência. A Anac é a responsável por auditar a TAM.
A FAA e a Easa informaram que irão apurar eventuais irregularidades no caso. A agência dos EUA informou que a empresa merece crédito pelos níveis de segurança e confiabilidade. A Easa diz que fiscalizou a tripulação 33 vezes desde 2009 e não encontrou falhas.